Ciência De Dimensão Superior

Ciência De Dimensão Superior
Uma discussão dos universos da experiência e estratégias de investigação transcendendo os limites da ciência mecanicista

James D. Watson, co-descobridor de DNA, recentemente falou sobre o mistério da vida: “Isto é muito complexo, mas pode ser explicado pelas leis da química, pelo impulso termal aleatório. É complicado; existem muitas variáveis, mas não existe dúvida que é isto”1.
Ele lembrou que esta convicção motivou fortemente tanto ele quanto Francis Crick durante sua pioneira investigação dentro do DNA. “Nós não teríamos conseguido se não acreditássemos que a química poderia explicar isto. Até então as pessoas achavam que a química não seria suficiente, que era necessário que a religião explicasse a vida. Mas mesmo quando eu estava na faculdade eu fui influenciado pela insistência de Linus Pauling de que você pode explicar a vida com base na química”2.
Sua atitude para com a religião é mais adiante esclarecida na seguinte declaração: “Quando eu escrevi a primeira edição de meu texto (A biologia molecular da gene), eu pensei, Eu estou re-escrevendo a Bíblia – na verdade retornando e descobrindo o que se passa" (grifos nossos)3.
De modo geral, as declarações de Watson representam a direção geral do pensamento científico nos últimos séculos – a fé na explicação de fenômenos complexos (como a vida, a origem das espécies, a origem e a estrutura do universo, etc.) pelas simples, matematicamente expressas leis naturais. Alguns cientistas e fiéis tentaram preservar um papel final para Deus como o responsável pelas leis da física, mas isto concede às leis da física um status maior do que Deus no universo. Com este acordo, a essência do conceito original do Deus onipotente é completamente eliminada, e a pessoa é deixada com uma concha vazia e sem sentido. As religiões que aceitaram este acordo deveriam reavaliar os seus posicionamentos.
De sua parte, Watson mantém uma inabalável fé de que a explicação física é sempre possível: “A nível de DNA isto [a explicação física da vida] funciona muito bem. Em um nível mais complicado, nós ainda estamos tentando compreender. A embriologia é muito mais difícil. E na neurobiologia existem poucos vislumbres. Mas alguns [cientistas] terão um momento em que a luz surgirá (...) O problema de explicar a consciência em termos biológicos é difícil, mas estou certo que se esclarecerá”4.
Aqui, a principal desvantagem da ciência moderna é focalizada com clareza. Watson admite que os aspectos fundamentais dos organismos vivos não têm sido totalmente explicados pelas leis da física; mesmo assim ele insiste que eles podem ser e serão explicados, rejeitando antecipadamente qualquer explicação não-material e não-mecanicista.
Mas isto é mesmo verdade? Seria possível que a fé de Watson seja sem fundamento? Todas as possíveis evidências apontam claramente para a possibilidade de que as formas complexas dos organismos vivos jamais possam ser explicadas pelas simples leis da física. Alguém poderia talvez dizer que as peças de Shakespeare podem ser explicadas pelas 26 letras do alfabeto, mas obviamente tem muito mais coisa envolvida nisto. Da mesma forma, os cientistas podem afirmar que a vida pode ser explicada pelo código genético incrustado em certas moléculas, mas por enquanto essa abordagem tem falhado ao explicar a complexidade mesmo das simples formas de vida. Assim como ninguém descobriu qualquer simples conjunto de leis que pudessem permitir um computador transformar as 26 letras do alfabeto em um Hamlet ou Macbeth, também nenhum cientista provou qualquer conjunto de simples leis naturais que pudessem transformar alguns elementos moleculares básicos e fundamentais da vida em uma única célula auto-reprodutora.
Assim, quem sabe da mesma forma que as fundamentais leis da física não podem ser reduzidas, a complexidade material que observamos nos organismos vivos também não pode ser reduzida. Alguns cientistas com liberdade de pensamento e com coragem para desafiar os preconceitos tomaram este destemido passo. Revendo as conclusões de suas próprias investigações, o proeminente biologista Walter M. Elsasser declara que o complexo bioquímico das formas dos organismos vivos é “de um tipo primário e de ordem natural irreduzível, no mesmo nível das mais convencionais leis da natureza”5.

Forma complexa absoluta

Tendo fracassado para reduzir coisas complexas em princípios simples, o cientista agora tem duas escolhas. Primeiro, ele pode simplesmente parar, afirmando que essas coisas existem, mas que não podemos dizer nada mais sobre elas. Segundo, ele pode seguir em frente investigando princípios convenientemente complexos que tenham gerado a complexidade irreduzível que ele observa. Em outras palavras, ele deve considerar a existência de uma forma complexa absoluta. Ele poderia então questionar sobre a natureza dessa forma e por que caminho a informação é transmitida a partir dessa origem para produzir as formas e as estruturas que vemos no universo, tais como os organismos vivos. Nós não precisamos ter quaisquer preconceitos sobre a natureza dessa absoluta forma complexa. Do ponto de vista da lógica, existem muitas possibilidades que podem ser consideradas.
Por exemplo, vamos considerar algumas possibilidades alternativas para uma absoluta e irreduzível forma complexa contendo informação capaz de gerar seqüências de complexos organismos vivos. Imagine que no oceano da Terra primitiva uma ameba estivesse situada numa certa posição e direção fixa. Imagine também que no espaço distante, um determinado padrão de raios cósmicos precisamente definidos fosse empurrado em direção a Terra. Pelo curso natural dos eventos nossos raios cósmicos hipotéticos atravessariam a atmosfera terrestre e destruiriam os genes da ameba de forma especial, dando assim início a um novo e superior tipo de organismo (como um trilobita, um tipo de escorpião).
Nesse cenário, o padrão especial de raios cósmicos e a situação da ameba em particular, representam um tipo de forma complexa absoluta que contém informação para a eventual produção de um organismo superior. Aqui nós propositalmente escolhemos um exemplo insatisfatório de como poderia ser uma absoluta forma complexa. Ao investigarmos a origem da forma do organismo superior em contraposição à configuração inicial particular dos raios cósmicos, não podemos seguir adiante. Nós simplesmente encontramos um intelectual e frustrante beco sem saída. Então, deixe-nos considerar outra possibilidade.
Imagine uma fonte de informação mais completa que se origina simultaneamente com o universo – um “computador cósmico” com uma memória somente para leitura (memória ROM) contendo dados para todas as formas complexas destinadas a se manifestarem. Essa proposta pode parecer estranha, mas se os físicos podem nos convidar a aceitar a hipótese de que todo o universo é detonado a partir do vácuo quântico, por que não pode um computador universal detonar tudo isto? Os astrônomos Sir Fred Hoyle e Chandra Wickramasinghe propuseram algo deste tipo no livro intitulado A evolução partindo do espaço: “Então, o que aconteceria se nosso progenitor fosse um fragmento de silicone extremamente complexo? Uma coisa parece correta nessa idéia. Não seria possível uma inteligência, mesmo grande, gerar vida carbônica [vida baseada em compostos carbônicos] sem executar uma quantidade enorme de cálculo”6.
Na verdade, a idéia de um computador cósmico é simplesmente uma maneira gráfica de quebrar o conceito muito arraigado que os princípios fundamentais devem ser reduzidos a simples leis naturais. A maior parte dos cientistas estão obcecados com a idéia de ver o fenômeno natural como uma progressão do simples ao complexo, enquanto que na realidade parece que o oposto é verdadeiro – qualquer coisa complexa deriva de algo igualmente ou mais complexo. Então, poderíamos imaginar que o computador cósmico utilizando a informação contida em sua memória pudesse construir espaçonaves que viajassem para diferentes planetas, implantassem formas de vida em ambientes adequados, então voltassem periodicamente para alterá-las geneticamente. Dessa forma, as variedades de organismos poderiam ser seqüencialmente produzidas.
Nós propomos que mesmo a estrutura de uma simples célula é de complexidade irreduzível. Então, poderíamos nos responsabilizar por essa complexidade ao obtermos programas adequados em nosso hipotético computador cósmico. Mas, em contraste ao nosso exemplo de raios cósmicos, esses programas poderiam ser mais do que meros repositórios arbitrários de informação. Se encarássemos os organismos como máquinas computadorizadas, alguns deles, tais quais os humanos, revelando um comportamento de ordem elevada que chamamos de inteligente, não seria possível que o computador cósmico original também possuísse a função de comportamento inteligente e de tomada de decisões? Aqui, começamos a ver como uma fonte original e absoluta de informação teria interessantes características, o que poderia nos levar a querer estudá-la diretamente.

Consciência e inteligência superior

Agora, chegamos a outra característica da realidade. Observamos em nós mesmos uma variedade de pensamentos, emoções e percepções que vão além da simples capacidade de uma máquina em responder aos estímulos externos através de algum tipo de processamento de dados. Em outras palavras, nossa capacidade para funcionar de forma inteligente é também acompanhada pelo fenômeno da consciência. A consciência é real – todos nós temos experiência disto. Mesmo assim, embora o comportamento associado com a consciência seja medido, a consciência mesmo permanece inexplicável pelos métodos quantitativos. Ela não pode ser responsabilizada pelas leis da física. Então, o que é isto e de onde vem?
Consideramos um computador cósmico exibindo uma ordem superior de inteligência como a fonte original de certas características complexas do universo perceptível. Isto sugere uma idéia ilusória – que essa inteligência cósmica poderia ser algo mais do que uma máquina morta. Possivelmente seria um ser consciente e super inteligente que originasse, não apenas a informação que determina as formas dos organismos, mas também a consciência que as despertam.
Esse conceito abre algumas possibilidades interessantes. Se existisse tal ser inteligente, ele seria capaz de comunicar a informação exata através dos meios de sua própria escolha para aqueles curiosos sobre as questões fundamentais tais como a origem dos seres vivos. E, se ele fosse bondoso, ele faria isto de bom grado.
Isso nos fornece outra possível estratégia para conseguir respostas quanto às questões fundamentais. A estratégia científica normal de supor que as origens fundamentais são simples e, então, procurar tais origens simples, certamente falhará se a origem fundamental é irredutivelmente complexa. Mas se a origem fundamental é um benevolente ser superconsciente, então, a estratégia de suposição que isto é assim, e de procurar um processo de entrar em contato com tal ser, pode ser bem sucedida.
A questão óbvia e prática é essa: será que podemos encontrar claros da informação que foi passada de uma fonte absoluta e inteligente aos seres humanos, com essa informação contendo meios e modos de demonstrar que ela é autêntica? Nós propomos que as literaturas védicas da antiga Índia dão um impressionante exemplo de um corpo de conhecimento interno comprovadamente sábio. As literaturas védicas têm uma descrição geral de epistemologia, a análise sistemática dos procedimentos para aquisição de conhecimento, e fornecem também uma discussão completa da natureza e origem do universo e dos organismos vivos que nele habitam. Neste ponto, iremos discutir resumidamente algumas características importantes da perspectiva do mundo védico.

Evolução inversa

Os Vedas descrevem, de forma elaborada, um processo complexo de evolução que progride de planos sutis para a manifestação física na matéria. De acordo com esse relato, o controlador universal gera diretamente um controlador subordinado primário que gera controladores secundários, tudo por processo não-sexual. Esses controladores secundários têm a capacidade para a reprodução sexual, não apenas para gerar a sua própria espécie, mas também para gerar outras espécies. Eles possuem em seus corpos a informação do esboço para a diversidade de organismos. Essa informação, que existe em semelhantes formas sutis, se origina na inteligência do controlador universal, que a transmite para os controladores subordinados (semideuses). Finalmente, os controladores secundários manifestam essa informação do esboço nas formas das variadas espécies, que continuam se reproduzindo. Deste modo, os Vedas, escrito milhares de anos antes da época de Darwin, contém o mais antigo relato da evolução. Entretanto, esse processo védico reflete o significado original da palavra evolução, que se refere mais exatamente ao desvelar de algo existente em uma forma rudimentar, do que a produção aleatória por processos físicos de algo inteiramente novo.
O relato sobre a origem das espécies contido nos Vedasé parecido com a evolução darwiniana, na qual envolve a descida física de um ancestral comum e o surgimento de novas espécies pela reprodução sexual. O conceito evolucionário védico difere da darwiniana no que tange ao ancestral comum ser um ser super inteligente, e não uma criatura unicelular. Além disso, a progressão de descida é das formas mais complexas àquelas mais simples. Pode-se, então, ser denominada “evolução inversa”, com alguns dos primeiros passos ocorrendo além do planeta.
Mesmo alguns cientistas modernos têm considerado a idéia da informação do esboço sendo transmitida de uma fonte superior. Robert Broom, que descobriu alguns dos primeiros resquícios do australopithecus na África, escreveu: “A origem das espécies e da evolução parece estar atribuída à uma agência espiritual, parcialmente inteligente e ordenada, em associação com o animal ou a planta, que controla os processos vitais e tende a manter a entidade viva mais ou menos adaptada ao seu meio ambiente. Mas, em acréscimo a isto, parece haver outras agências espirituais de um tipo muito mais elevado que têm sido responsáveis pelo que podemos chamar de evolução maior (...). Essas agências espirituais parecem ter trabalhado, de tempos em tempos, no controle das agências inferiores que estão associadas aos animais e plantas”7. A idéia de Broom, embora não exatamente paralela ao conceito védico, compartilha com a noção das inteligências superiores controlando.
Pensamentos semelhantes têm sido expressados por Alfred Russell Wallace, que, juntamente com Darwin, acreditavam na explicação da teoria da evolução pela seleção natural. Ele escreveu no livro Mundo da vida: “Se existe tal Ser Infinito e se o seu desejo e propósito é multiplicar os seres conscientes, então, dificilmente nós somos o primeiro resultado desse propósito. Concluímos, portanto, que existe agora no universo infinitas classes de poder, infinitas classes de conhecimento e sabedoria, infinitas classes de influência dos seres superiores sobre os seres inferiores. De posse dessa opinião, eu sugeri que esse vasto e maravilhoso universo, com sua quase infinita variedade de formas, movimentos, e reações de parte sob parte, de sóis e sistemas até a vida vegetal, a vida animal, e a alma humana viva, sempre exigiu e ainda exige a contínua e coordenada interferência de muitas dessas inteligências”8.
Diferente da maioria dos cientistas, Wallace está preparado para aceitar que existe essa coisa de intenção no universo. Mas sua declaração sobre “a alma humana viva” demonstra que ele está aderindo ao conceito comum Ocidental que apenas os seres humanos têm almas. Os Vedas, entretanto, ensinam que todos os organismos vivos têm almas e que além da evolução das formas físicas, existe um segundo processo evolucionário envolvendo a transmigração de almas.
A alma é compreendida como uma unidade única e indestrutível de consciência proveniente da entidade universal consciente. Essas unidades individuais de consciência podem ser vistas como idênticas em substância com a consciência universal, mas muito menor em tamanho e poder.
As unidades de consciência dentro dos corpos de todas as espécies são, portanto, qualitativamente idênticas em cada uma, embora revelem uma certa escala de poderes e habilidades baseados nas características particulares das formas físicas que elas habitam. Para compreender esse princípio, podemos considerar como um motorista humano pode manifestar diferentes habilidades de acordo com o tipo de veículo que estiver dirigindo. Em uma bicicleta, um ser humano pode alcançar uma certa velocidade, mas em um potente carro esporte, a velocidade e a força aumentam. Em um avião o ser humano pode voar e em um barco ele pode navegar. Da mesma forma, os egos conscientes habitando diferentes corpos manifestam diferentes poderes e habilidades, embora eles sejam todos essencialmente idênticos.

Transmigração e karma

A transmigração requer procedimentos para regular a passagem do ego consciente de um corpo para outro. De acordo com os Vedas, esse processo é subordinado às mais elevadas leis da natureza conhecidas coletivamente como a lei do karma. Os egos conscientes dentro das formas inferiores, tais como plantas e animais, automaticamente progridem até alcançarem a forma humana. A progressão das formas inferiores para as formas superiores corresponde ao desenvolvimento do estado de consciência inferior para o superior.
Nesse ponto, a pessoa provavelmente pergunta por que um inteligente ser superior colocaria uma entidade consciente, ou alma, através da experiência de permanente nascimento e morte, em diferentes tipos de corpos. A resposta depende da avaliação de um aspecto fundamental do ego consciente – sua liberdade para desejar conforme lhe satisfizer. A posição constitucional de cada ego é agir livre e conscientemente em harmonia com os desejos do Supremo. Se a entidade consciente usar incorretamente seu livre arbítrio para agir independentemente do Supremo, então Ele favorece esse desejo ao dar a entidade um campo de ação no universo material.
Ali, a entidade deve se esforçar pela sobrevivência em um ambiente de competição e conflito entre milhões de outros seres motivados pelos mesmos desejos materiais. Essas interações entre seres conscientes são governadas por um princípio de justiça universal chamada karma, sob a qual os seus sucessos e fracassos, felicidade e sofrimento, são premiados de acordo com os seus atos nas vidas passadas. Cada ser consciente é, portanto, pessoalmente responsável pelo seu destino.
Os vários corpos que os seres conscientes podem entrar existem para um duplo objetivo – a satisfação de desejos particulares de experimentar a sensação material, e a gradual transformação do desejo material para o espiritual. Na medida em que um ser fizer mau uso de sua liberdade e agir de tal forma a prejudicar a si próprio ou aos outros, ele deve sofrer, de modo correspondente, maiores limitações na sua habilidade de agir.
O desejo de Deus é que a alma volte ao nível de existência espiritual. Mas, por sua própria escolha, a alma pode permanecer no mundo material. Nas formas de vida onde a consciência é menor que a consciência humana, a entidade viva é totalmente controlada pelas leis materiais. Na forma humana, a consciência é desenvolvida ao ponto em que a pessoa pode ver como a energia material está sendo direcionada pelo controlador universal.
Essa é a chave para a liberdade, por que nesse nível, a pessoa é capaz de fazer escolhas conscientes que afetam a sua posição. A lei do karma influencia fortemente a situação onde a pessoa se encontra, porém não determina de maneira inflexível o seu futuro – existe espaço para a livre escolha. O ser consciente pode escolher ficar indiferente ao desejo e propósito do controlador universal e continuar aceitando repetidamente o nascimento. Ou ele pode desejar agir em harmonia com esse desejo e propósito e, então, se libertar do ciclo de nascimento e morte e se engajar nas atividades espirituais conscientes.
As atividades espirituais conscientes são possíveis por que a percepção sensorial é uma função natural do eu consciente. Uma estrutura de sentido físico como olhos ou ouvidos é meramente um mecanismo para canalizar determinados tipos de dados sensoriais ao seu receptor, conhecido nos escritos védicos como jivatma. O cérebro é um mecanismo processador de informação que faz parte desse aparelho sensitivo.
Assim, os sentidos e o cérebro podem ser considerados uma interface entre o mundo exterior e o eu consciente (jivatma). Mas essa interface é na verdade uma limitação para a habilidade sensitiva original do jivatma, por que as estruturas dos sentidos materiais são designadas para registrar apenas certos fenômenos materiais. Essa limitação é necessária se a alma agir esquecendo-se de sua natureza espiritual e independentemente de sua ligação com Deus. É sempre possível, entretanto, para a alma acordar suas habilidades sensórias e sentir Deus diretamente. As literaturas védicas descrevem as histórias de grandes devotos e sábios que alcançaram esse estado de superconsciência.
Existem vários níveis de consciência e atividade possíveis dentro dos limites dos sentidos materiais. Uma pessoa no nível de consciência humano comum ficará ciente apenas do fenômeno material rotineiro conhecido por todos nós. Mas os seres com níveis mais altos de consciência, incluindo aqueles como os devas, ou semideuses controladores, têm acesso a mais profundos e mais abrangentes aspectos da realidade material. Por exemplo, uma pessoa comum assistindo um programa de televisão vê apenas as formas das pessoas na tela. Mas um engenheiro elétrico pode compreender exatamente como as imagens são produzidas e ter acesso direto ao equipamento eletrônico que gera essas imagens. Assim como o engenheiro que trabalha numa estação de televisão opera em um ambiente mais sofisticado do que a pessoa que assiste à televisão em casa, certamente existem dimensões mais altas e mais baixas no universo de realidade material correspondente a diferentes níveis de percepção material.
Se existe um supremo e inteligente criador do universo, Ele deve existir numa dimensão acima do tempo e espaço material que Ele gera e controla. A alma individual sendo totalmente espiritual pode também entrar nessa dimensão. Neste nível mais alto de consciência os sentidos do jivatma se tornam desimpedidos em sua atividade, e a pessoa pode sentir diretamente a causa de todas as causas.
Os cientistas têm se engajados por séculos na investigação filosófica de uma unidade elementar que fundamente o diversificado universo. Atualmente, isto toma a forma de investigação científica para a grande e especial teoria do campo para explicar tudo a partir das partículas subatômicas até os grupos galácticos. Tais esforços para descobrir um princípio unificador material, entretanto, não têm sido bem sucedidos.
Então, seria proveitoso considerar o aspecto unificador de uma entidade suprema consciente. Para compreender esse aspecto unificador podemos fazer uma comparação entre a entidade consciente suprema e os qualitativamente semelhantes seres individuais conscientes, assim como, por exemplo, nós mesmos. Mesmo quando você está lendo isto, sua consciência está unindo diferentes aspectos da realidade – este artigo, sua personalidade, o meio ambiente, seus pensamentos – numa só impressão integrada. De modo similar, a única entidade universal consciente, às vezes conhecida como a Superalma, é o princípio integrante que une o universo em um todo completo. A consciência toda penetrante é a característica distinta da Superalma, em contraste com os seres vivos infinitesimais, cuja consciência é extremamente limitada no espaço.
No Brahma-samhita, uma coleção de hinos das literaturas védicas da antiga Índia, o autor descreve como a entidade universal consciente une todos os aspectos da realidade: “Ele é uma entidade indiferenciada. (...) Todos os universos existem dentro Dele e Ele está presente em Sua totalidade em cada um dos átomos que estão espalhados pelo universo, ao mesmo tempo. Tal é o primordial Senhor a quem eu adoro.” Tudo, até o átomo, é a energia da inteligência controladora universal, e é, desse modo, unificada. A maioria dos conceitos de unidade propõe a idéia de uma unidade que sustenta todo o fenômeno e é destituída de qualidades, personalidade e variedade de formas.
Embora nossa própria inteligência possa ser aplicada às formas e a padrões da matéria e, portanto, nos levar a certas conclusões sobre a existência do controlador universal, o conhecimento detalhado sobre este supremo ser e Suas ações transcendentais devem ser obtidas através de outro processo. De acordo com o relato védico, o princípio fundamental da informação absoluta é fornecer informação para o projeto dos organismos. Ele é também o fornecimento de informação para a inteligência funcional dos seres vivos, capacitando-os na execução de atividades complexas. Além disso, esse ser original pode fornecer informação sobre Ele mesmo.
Os Vedas dão uma descrição elaborada de como essa informação absoluta é disseminada. Essencialmente, esse conhecimento é transmitido por vibração sonora. A informação é transmitida ao primeiro ser vivo no universo, Brahma. E, então, é passada de um professor espiritual (guru) a outro numa cadeia de sucessão discipular. Os sons védicos são qualitativamente diferentes dos sons materiais visto que eles incorporam muito mais do que simplesmente simbolizar conhecimento.
Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, o mais renomado estudioso védico e ele mesmo um dos mais notáveis mestres espirituais na cadeia discipular descendente de Brahma, declara: “Antes da criação o Senhor existia e, portanto, as palavras pronunciadas pelo Senhor são vibrações de som transcendental. Existe um abismo de diferença entre as duas qualidades de som, ou seja, prakrita e aprakrita. O cientista pode lidar apenas com o som prakrita, ou som vibrado no céu material, e portanto, nós devemos saber que os sons védicos gravados em expressões simbólicas não podem ser compreendidos por qualquer um dentro do universo, a menos e até que a pessoa seja inspirada pela vibração do som sobrenatural (aprakrita), que descende na cadeia de sucessão disciplinar.” O som material é diferente do objeto que ele representa. Por exemplo, a palavra água é diferente da substância água, mas os sons védicos não são distintos das realidades espirituais que eles representam. Ao receber os sons védicos do canal apropriado, as realidades espirituais incorporadas neles são diretamente comunicadas ao ouvinte receptivo. A exigência é que a pessoa receba o conhecimento conforme escutado e passe adiante sem alteração. Dessa forma, a informação permanece perfeita. Em determinado ponto na história do som védico as vibrações foram escritas pelo grande sábio Vyasadeva. Esses escritos formam um corpo de conhecimento padrão, e os ensinamentos dos mestres espirituais podem ser, assim, examinados para verificar se eles obedecem aos textos védicos tal como o Bhagavad-gita.
O objetivo final do conhecimento é recolocar a consciência do eu em sua posição original, livre da matéria. No estado condicionado, a consciência do eu tenta exercer suas aptidões separada do Supremo, mas no estado liberado o eu é capaz de se relacionar a nível pessoal direto com a suprema pessoa. Bhakti, ou a ciência do serviço religioso, é o meio para cultivar esse relacionamento transcendental.
Os meios para despertar esse relacionamento variam durante a história. Na presente época os Vedas recomendam o cantar dos mantras compostos dos nomes de Deus, particularmente o mantra Hare Krishna. O princípio básico é que Deus está presente no som do Seu nome. Quando a consciência está coberta pelos conceitos materiais, ela não consegue perceber corretamente o eu ou o Supremo. Mas as energias espirituais contidas nas vibrações do som transcendental do mantra Hare Krishna têm o poder de remover as coberturas materiais do eu, e, assim, acordar sua consciência espiritual original e libertá-la das reações karmicas que a confundem no ciclo da reencarnação.
Os cientistas têm criticado por muito tempo a religião por apresentar explicações que a pessoa pode ou não acreditar, mas às quais não podem ser testadas de forma confiável. Mas a ciência do bhakti-yoga tem métodos práticos para elevar a percepção sensorial a fim de que a pessoa possa realmente perceber tudo que nós estamos agora discutindo – a alma, o Ser Supremo, e a dimensão espiritual superior.
Neste ponto alguns podem afirmar que tais experiências estão disponíveis apenas aos indivíduos especiais e são, portanto, não realmente aceitáveis como científicas. Essa acusação pode ser mais exatamente nivelada na ciência material. Físicos atômicos com acesso ao acelerador de partículas de alta energia podem estar aptos a confirmar a existência de certas partículas subatômicas, mas a pessoa comum não está equipada para isto. Por outro lado, qualquer pessoa tem o potencial para experimentar o conhecimento espiritual que pode ser adquirido através da ciência do bhakti-yoga. Nenhum equipamento especial é necessário.
A razão pela qual nem todos são capazes de imediatamente obter a percepção direta do fenômeno não-material é que existem condições necessárias para que a elevação da consciência ocorra. Isto também é verdade na ciência. Por exemplo, houve um experimento dirigido pelo renomado físico inglês Henry Cavendish (1731-1810), para determinar a constante gravitacional. Nesse experimento, um haltere é suspenso por um fino cabo. Bolas de ferro de volume definido são colocadas em lados opostos nas extremidades do haltere, e, por sua influência, o haltere se move levemente. Quando as bolas de ferro vão para trás, o haltere se move na direção oposta. Pelo cálculo, a pessoa pode determinar a constante gravitacional.
Mas se existir interferência externa, por exemplo, não existe possibilidade alguma de se conseguir uma leitura precisa. As influências externas devem ser, portanto, cuidadosamente excluídas do sistema. Também na ciência espiritual, certos fatores devem ser excluídos a fim de ser obter os resultados desejados. Existem certas atividades prejudiciais para a consciência superior. Essas influências perturbadoras que, de acordo com os Vedas, mantém a consciência na plataforma material, são as apostas em jogos de sorte, o comer carne, o sexo ilícito, e a intoxicação. Então, um praticante do bhakti-yoga evita-os cuidadosamente. As sociedades também conhecidas como yoga que permitem que os seus membros continuem os hábitos acima mencionados não podem expressar a realização espiritual.
O estágio final do bhakti-yoga é compreender as atividades da suprema entidade consciente na dimensão espiritual. As partes mais confidenciais das literaturas védicas descrevem algumas dessas atividades. Nós já falamos da idéia de dimensões superiores de existência, e demonstramos que elas se tornam acessíveis pela aquisição de níveis superiores de consciência. As literaturas védicas revelam a existência de um mundo espiritual que é completamente distinto desse universo material e que, na verdade, forma a porção maior da realidade total. O Bhagavad-gita declara: “Ainda assim, existe outra natureza não manifesta, que é eterna e é transcendental a esta matéria manifestada e não manifestada. Ela é suprema e nunca é destruída. Quando todo esse mundo for aniquilado, aquela parte permanece como ela é. Aquilo que os Vedantas descrevem como não manifesto e infalível, aquilo que é conhecido como o destino supremo, aquele lugar do qual, tendo alcançado-o, a pessoa nunca volta atrás – que é a Minha suprema morada.”
Deus não cria apenas o universo material. Ele tem Seu próprio mundo transcendental diversificado no qual Ele se ocupa em passatempos para a Sua própria satisfação. Deus é o supremo desfrutador, e inumeráveis almas espirituais moram com Ele na mais elevada plataforma de consciência e a Ele se associam. Elas servem ao Senhor constantemente e sem interesses egoístas. O Senhor retribui a eles, por sua vez, servindo-os, e, então, ambos o Senhor e Seus devotos experimentam vários prazeres espirituais que em muito ultrapassa qualquer prazer material. A natureza dessas trocas constitui uma ciência em si mesma.
Este texto apresenta brevemente uma alternativa para o conceito mecanicista do universo, uma ciência baseada na consciência e na personalidade mais do que nos átomos e no vácuo. W. Heitler, um físico teórico da Universidade de Zurich, afirma em seu livro Man and science: “A crença em um universo mecanicista é uma superstição moderna. Como provavelmente acontece em muitos casos de superstição, a crença é baseada em uma mais ou menos extensiva série de fatos exatos, fatos que são subseqüentemente generalizados sem permissão, e finalmente tão distorcidos que eles se tornam grotescos. (...) A ‘superstição de feitiçaria’ custou a vida de inúmeras mulheres inocentes do jeito mais cruel. A superstição mecanicista é mais perigosa. Ela leva ao geral esgotamento espiritual e moral, o que pode facilmente levar a destruição física. Quando chegarmos ao estágio de enxergar no homem somente uma máquina complexa, que importância tem se o destruímos?”10.

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