A Fé Pode Ser Razoável?

A Fé Pode Ser Razoável?

Algumas vezes sim, mas dificilmente será sempre

Nossa sociedade moderna, com sua ênfase na ciência e tecnologia, vê a si mesma mais associada à razão do que à fé. A fé, a final de contas, indica uma crença inquestionável e parece estar em discordância com o método científico: se quisermos estar certos sobre nossas conclusões, deve ser sábio baseá-las apenas no que podemos observar, medir e verificar através de nossa percepção sensorial.
Apesar desse método parecer racional, ele possui um grande defeito que lhe é inerente: nossa percepção sensorial é limitada e imperfeita. Dessa forma, mesmo que tomemos o máximo de cuidado para diminuir os erros que cometemos em nossas observações, ao final seremos capazes de observar apenas uma pequena extensão dos fenômenos. Além disso, mesmo a este nível, somos forçados a admitir a dependência na crença – ou, para deixar as coisas mais claras, na fé.
Como pessoas inquisitivas, buscamos descobrir mais sobre nós mesmos e sobre o mundo ao nosso redor. Decidimos que devemos aceitar como evidências apenas o que podemos perceber diretamente pelos nossos sentidos. Mas há uma questão: o quanto podemos confiar em nossos sentidos? O quanto de fé nós colocamos neles? Por exemplo, ouvimos a frase: “Eu quase não acreditei em meus olhos” ou “eu quase não acreditei em meus ouvidos”. Nossa decisão de aceitar as percepções de nossos sentidos como evidências é, em si, uma forma de fé.
As falhas desse tipo de fé são duas. Primeiramente, como já salientamos, nossos sentidos são imperfeitos. Nossas observações nunca serão exatamente corretas, a ponto de terem sido eternizadas cientificamente no famoso princípio da incerteza de Heisenberg. As conclusões a partir dessas percepções imperfeitas serão, da mesma maneira, necessariamente imperfeitas. A segunda falha, entretanto, é muito mais séria: há uma grande extensão de coisas que não podemos perceber com nossos sentidos. Por exemplo, nós só podemos ouvir sons em uma faixa limitada. Mesmo com instrumentos sofisticados, somos incapazes de perceber toda a gama de sons, mas assumir que além daquela faixa nenhum som poderia existir seria uma grande presunção.
Um exemplo mais impressionante de algo que não somos capazes de perceber (e nunca seremos) é o “passado”. Tudo o que ocorreu antes de nosso nascimento, ou antes, de nossas observações começarem, não pode se tornar conhecido para nós diretamente através de nossos sentidos. Mas presumir que não há história – apenas porque nós não a testemunhamos através de nossos sentidos – seria absurdo. Nós firmemente acreditamos que há um passado, mesmo que nunca tenhamos experiência dele. Dessa forma a necessidade nos força a expandir as bases de nossa “busca pela natureza das coisas” para englobar certos elementos que estão além de nossa percepção sensorial. Agora, naturalmente, ficamos com menos certezas porque nos é pedido que tenhamos fé não apenas em nossa percepção, mas que também ouçamos e acreditemos em evidências fornecidas por outros. Por exemplo, para ter conhecimento sobre a antiga civilização grega não podemos nos voltar para alguma fonte de informação contemporânea. Tudo o que podemos examinar são alguns prédios arruinados. Então para descobrir algo sobre eventos de dois milênios atrás, precisamos nos voltar para os escritos de alguém que viveu naquele tempo. Então, teremos que decidir se esses escritos são factuais ou ficcionais. Agora vemos que nos perdemos em uma área complicada. Ainda assim estamos preparados para aceitar essas evidências. Nós até compilamos isso em “livros de histórias” e gastamos tempo precioso estudando e tentando aprender algumas lições dessas histórias.
Para melhor entender os limites de nossa percepção sensorial, vamos considerar hipoteticamente o caso de um aborígene chegando em Nova Iorque. Ao se deparar com a grande e complexa metrópole, o aborígine irá naturalmente se maravilhar com tudo. Mas ele dificilmente seria capaz de explicar como tudo isso existe, apenas pela direta percepção de seus sentidos. Ele pode muito bem acreditar que um lugar como aquele não fora construído por meros seres humanos, e então pode assumir que foi a criação direta de algum espírito poderoso, ou que a cidade sempre esteve lá, como uma cadeia de montanhas ou ainda, ele simplesmente poderia se tornar desorientado e assustado.
Por outro lado, um europeu chegando a Nova Iorque, numa primeira visita não terá dificuldade de entender que a cidade foi construída durante muitos anos por incontáveis arquitetos e artesões. Apesar de nosso visitante culto não ver a cidade sendo construída e não encontrar nenhum dos arquitetos e artesões envolvidos em sua construção, ninguém o convencerá de que a cidade surgiu de uma outra maneira. Sua crença será inteiramente razoável. Mas nós temos que admitir que, falando estritamente, este é um tipo de fé, embora seja uma fé razoável.
Sendo assim, podemos ver que as palavras “fé” e “razão” não são opostas, como algumas vezes supomos, mas conceitos inter-relacionados. Podemos estar seguros ao ter esta “fé razoável”, com no caso de acreditar que a cidade de Nova Iorque foi construída por artesões inteligentes, mas devemos ser cautelosos com crenças que não são razoáveis, baseadas apenas em superstições.
Agora vamos supor que depois de chegar no aeroporto John F. Kennedy, nosso europeu encontra um homem com olhar impetuoso que lhe entrega um livro propondo a doutrina de que a cidade de Nova Iorque não fora construída por nenhum dos meios mencionados; ao contrário, algumas centenas de anos atrás houve uma explosão na região da baía de Hudson e após o clarear da fumaça, a cidade inteira (completa com arranha-céus, metrôs e sistemas telefônicos) estava lá. Apesar de o europeu não poder provar diretamente por sua percepção que a doutrina é falsa (já que ele não observou pessoalmente a construção da cidade), ainda assim ele vai concluir que o jovem é um louco.
Através da observação científica, aprendemos que a estrutura física de uma célula viva é mais complexa que toda a cidade de Nova Iorque (completa, com as linhas de telefone, os circuitos elétricos, os encanamentos e as coisas que as pessoas possuem), e que o corpo humano tem mais de trinta milhões dessas células. Além disso, diferentemente da cidade de Nova Iorque, o corpo funciona sem problemas e com precisão impressionante. Ainda mais impressionante é que essas células complexas possuem a habilidade de se regenerarem – um conceito que os encarregados em planejar a cidade nunca poderiam conceber (pensando bem, eles poderiam invejar isto).
Então, se concluímos que o corpo humano também foi planejado e construído por alguma pessoa ou pessoas mais inteligentes, temos o que poderíamos chamar de fé razoável. Mas os auto-intitulados cientistas que dizem que o corpo humano surgiu a partir de combinações ao acaso de moléculas originalmente levadas a ação por alguma grande explosão – estas pessoas podem apenas ser comparadas ao louco fanático que pregava a criação da cidade de Nova Iorque a partir de uma explosão na baía de Hudson. Mesmo assim, não chamaríamos essa hipótese de fé “não-razoável”. Isto não é nada mais do que insanidade.
Portanto, a conclusão básica do teísmo, a saber, que este universo altamente complexo foi concebido e construído por um ser altamente inteligente – de fato por um ser de uma genialidade além de nossa imaginação – é totalmente razoável. Embora possamos rotular essa conclusão como baseada em fé, ela também é totalmente baseada em uma fé razoável.
Alguém pode argumentar que apesar de podermos verificar que a cidade de Nova Iorque foi desenhada e modelada por homens inteligentes, nós não podemos utilizar os mesmos métodos para verificar nossa conclusão de que o universo foi desenhado e criado por um Ser Supremo. Mas podemos responder, em primeiro lugar, que ninguém teria problemas em verificar que a cidade fora criada daquela forma porque é um fato auto-evidente e que não requer verificação. Mas, se alguém é impelido, por alguma razão a buscar esta verificação, esta pessoa pode investigar os registros da cidade, interrogar os cidadãos mais velhos que testemunharam partes das construções e assim por diante. Se ela concorda em acreditar na autenticidade do que as pessoas e os registros da cidade contam, então ela poderá certamente sanar suas dúvidas.
Da mesma forma, a existência de Deus também não permanece sem seus meios de verificação. Apenas ninguém se dá ao trabalho de buscar esta verificação. Em vez disso, nós escolhemos aceitar a pseudo-racionalidade dos cientistas e filósofos modernos que rejeitam a fé em Deus como não razoável. Mas pela prática científica do yoga (especialmente bhakti-yoga) podemos verificar a existência de Deus, exatamente como pela experimentação podemos verificar as leis físicas. A dificuldade é simplesmente nossa relutância em conduzir o experimento.
Nossa sociedade moderna vagueia em direção ao pressuposto que Deus não existe ou que, se Ele existe, Sua existência não é de fundamental importância para o desenvolvimento de nossa civilização. Como racionalistas, achamos impossível levar a sério um Ser que não podemos perceber diretamente através de nossos sentidos, porque aceitar um ser assim requer um comprometimento de fé. Mas, de fato, toda as conclusões que temos requerem fé, mesmo aquela mais simples, a fé que nossos sentidos são acurados. Então, a verdadeira tarefa é discriminar entre fé razoávele fé não razoável.
Uma vez que podemos ter uma fé razoávelque este universo e seu conteúdo, incluindo nós mesmos, são criações de um ser eminentemente inteligente, engenhoso e poderoso, é um tanto tolo, senão perigoso, presumir que este Ser não possui nenhuma relevância para nossa existência ou para nossa civilização. Ao contrário, deveria parecer claro que devemos pensar bastante na tarefa de melhor entender quem é esse Ser, qual a natureza de Sua existência, como Ele criou este universo (e a nós), qual o interesse que Ele pode ter por Suas criações, qual nossa relação com Ele, quais nossas obrigações para Ele e muitas outras perguntas que naturalmente decorrem de Sua existência.
O espaço não permite que examinemos as respostas para as perguntas postuladas acima. Todavia, podemos recomendar a nossos leitores que eles se comprometam seriamente a estudar os trabalhos de teísmo científico deixados por Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada. Estes trabalhos compreendem traduções exatas e comentários autorizados dos grandes clássicos do antigo conhecimento – O Bhagavad Gita Como Ele É, Srimad-Bhagavatam, Sri Caitanya-Charitamrita, e outros. No total mais de cinqüenta volumes estão disponíveis de forma clara e com lógica impecável. Cada volume responde a questões sobre Deus e as obrigações originais do ser humano. Estes livros resgatam, da nebulosa região do dogma e superstição, os objetivos da religião e da fé, claramente para o terreno da racionalidade supramundana. Aqueles que são pensadores e que buscam obedecer ao antigo comando “conheça-te a si mesmo” encontrarão grande prazer nesses trabalhos. Consideraremos o propósito desse curto artigo completamente atingido se ele levar nossos leitores a fazerem mais investigações desta literatura.

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