Natureza Divina

A Aplicação Prática dos Princípios Morais Védicos na Solução de Crises Ambientais

Se tiver de acontecer uma fusão da ciência com a religião, será preciso existir um genuíno desejo e uma necessidade de cooperação. E uma área onde a necessidade de cooperação entre ciência e religião é mais profundamente percebida é aquela que se preocupa com o meio ambiente.

Em 1995, eu assisti a uma conferência sobre população, consumo e meio ambiente, patrocinada por American Association for the Advancement of Science e o Boston Theological Institute1. Estavam reunidos na conferência cientistas, políticos, ativistas ambientais e religiosos. Eu fui convidado como autor do livro Divine nature: A Spiritual Perspective On The Environmental Crisis2 , que havia obtido comentário favorável de muitos, inclusive de dois ex-ministros do governo da Índia3. Divine Nature vê a crise ambiental do ponto de vista dos ensinamentos védicos da Índia.

Um dos principais palestrantes na conferência sobre população, consumo e meio ambiente era Bruce Babbitt, Secretário do Interior para o governo dos Estados Unidos4. Como político, Babbitt deu um extraordinário discurso. Ele falou do crescimento na cidade de Flagstaff, Arizona, da qual pode ser vista uma enorme montanha. A montanha inspirou em Babbitt um sentido de algo maravilhoso, algo divino, na natureza. Educado na religião católica, Babbitt perguntou a um padre sobre a montanha na esperança de conseguir alguma pista para seu significado espiritual. Mas ele não recebeu uma resposta satisfatória, talvez por que o padre estivesse acostumado a pensar em Deus como algo distante da natureza. Tempos depois, Babbitt se aproximou de um amigo de sua idade. Esse amigo, que por acaso era um americano natural da tribo Hopi, levou Babbitt até a montanha e explicou-lhe sua natureza sagrada. E, desde então, Babbitt disse que desenvolveu um sentido da presença de Deus na natureza – a uma proporção que antes não havia sido possível.

Certamente, quando eu ouvi isso, eu me lembrei do Bhagavad-gita, onde o Senhor Krishna diz: “dos objetos imóveis, sou os Himalaias”5, “e dos rios que correm, sou o Ganges”6, “e das estações, sou a primavera florida”7. Tais expressões da imanência de Deus na natureza são encontradas por todo o Gita e em outros textos espirituais indianos.

Babbitt continuou relatando que ele compreendeu que o consumo excessivo era a causa subjacente da maioria dos problemas ambientais. Havia um consenso geral na conferência que o problema real não era a superpopulação do mundo, mas o consumo excessivo, particularmente nos países desenvolvidos e progressivamente nos países em desenvolvimento. Babbitt disse que, como político, ele não podia apresentar às pessoas um programa que realmente resolvesse o problema do meio ambiente. Isto exigiria muito sacrifício dos eleitores, tanto que eles votariam contra qualquer pessoa ou partido que dissesse para eles o que realmente seria necessário.

Então, o Secretário Babbitt se voltou aos religiosos presentes e disse apenas que eles deveriam produzir, em larga escala, necessárias mudanças de valores para reverter o processo de degradação ambiental.

Estava também palestrando na conferência o Dr. Henry Kendall, professor de física do MIT e presidente da Union of Concerned Scientists. Dr. Kendall disse que a ciência pode apontar as dimensões do problema ambiental, mas não pode resolver o problema. A ciência, afirma ele, não tem nenhuma solução genial, nenhum conserto tecnológico para a crise ambiental. Assim como o Secretário Babbitt, ele reconheceu o consumo excessivo como a causa da degradação ambiental, e, do mesmo modo que o Secretário Babbitt, ele apelou para a religião como a única força no mundo capaz de gerar as necessárias mudanças nos valores para conter a destrutível compulsão da humanidade em produzir e consumir excessivamente.

Esta não é a primeira vez que tais sugestões têm sido feitas. Em 1990, no Fórum Global dos Líderes Espirituais e Parlamentares que ocorreu em Moscou, 32 cientistas assinaram uma declaração conjunta fazendo apelando às religiões do mundo para fazerem uso da enorme influência para preservar o meio ambiente8. Os cientistas declararam que a humanidade estava se comprometendo com “Os Crimes Contra a Criação”. Eles disseram também que “para cultivar e proteger o meio ambiente os esforços precisam ser introduzidos com uma visão do sagrado”.

Essas declarações são de algum modo irônicas, pois a própria ciência, ou digamos, um ramo particular da ciência é largamente responsável pela eliminação do sagrado na nossa visão do universo. Entre os signatários da declaração estavam Carl Sagan e Stephen J. Gould. E eu devo dizer que foi fascinante vê-los encorajando tal linguagem como “crimes contra a criação”. Em seus escritos, ambos são geralmente muito hostis à palavra “criação” como é a mais conservadora ciência. É interessante notar, entretanto, como a ciência e a religião tendem a adotar a terminologia uma da outra quando lhes convém, freqüentemente redefinindo os termos. Uma das missões diante de nós é encontrar uma linguagem comum para a ciência e a religião, e usá-la com imparcialidade para o diálogo construtivo.

Quando eu uso a palavra ciência, eu quero dizer a ciência governada por determinado grupo de hipóteses metafísicas. A ciência de hoje é governada por um grupo de hipóteses metafísicas que elimina o sagrado de nossa visão do universo, se entendemos por sagrado as coisas associadas a um Deus pessoal e distinto das almas individuais. É perfeitamente possível, entretanto, ter uma ciência governada por um grupo de hipóteses metafísicas que incorpore uma visão genuína do sagrado.

Mas para a ciência atual, governada por suas presentes hipóteses metafísicas, a natureza é um objeto a ser não apenas compreendido, mas dominado, controlado e explorado. E é a própria ciência que nos fornece os instrumentos para tal dominação, controle e exploração. É claro, eu estou falando de tecnologia. Vamos considerar o automóvel. Ele certamente é uma conviência, mas também tem a sua desvantagem. Ele é um dos principais contribuintes para a poluição da atmosfera, e somente nos Estados Unidos aproximadamente 50.000 pessoas por ano são mortas em acidentes de carro. Para efeitos de comparação nós podemos considerar que em todos os 8 anos do envolvimento militar americano no Vietnã, 50.000 soldados americanos foram mortos. O mesmo número de americanos são mortos a cada ano em suas próprias auto-estradas.

A ligação entre um conceito materialista do universo e uma forma materialista de vida foi apontada milhares de anos atrás no Bhagavad-gita. O Gita descreve os filósofos materialistas desta forma: “Eles dizem que este mundo é irreal, sem nenhum fundamento e sem um Deus controlador”9. E qual é o resultado prático para as pessoas que vivem nas sociedades dominadas por essa visão do mundo, que nega a realidade fundamental de Deus e da alma? O Gita diz: “Eles acreditam que satisfazer os sentidos é a necessidade primordial da civilização humana. Com isto, até o fim da vida sua ansiedade é imensurável”10. Tais pessoas, diz o Gita, estão “presos a uma rede de centenas de milhares de desejos”11. E não é esta a nossa situação atualmente? Não somos bombardeados diariamente com mensagens de rádio, televisão, jornais, revistas, filmes e computadores, todas tentando nos envolver em outras centenas de milhares de desejos que só podem ser satisfeitos pelo consumo de vários produtos produzidos por nossas prósperas indústrias? O Gita nos alerta que pessoas como nós “se dedicarão a atos maléficos, horríveis, com a intenção de destruir o mundo”. E não estamos gradualmente destruindo o nosso mundo, poluindo o ar, a água e a terra, e levando centenas de espécies à extinção?

Isto demonstra a humanidade com um dilema ético. Colocado de forma simples, a ética é um processo para determinar o que é bom, e como fazer as opções que irão estabelecer e preservar o que é bom. Considerando as hipóteses da ciência materialista moderna, se torna muito difícil construir uma ética para preservar o meio ambiente ou salvar espécies em risco de extinção. De acordo com as concepções atualmente dominantes, o nosso planeta, na verdade o nosso universo é o resultado de um acidente cósmico, uma flutuação acidental do vácuo quântico mecânico. Considerando essa hipótese, torna-se muito difícil afirmar que determinada condição ambiental de nosso planeta seja essencialmente boa. No final, não existe motivo para dizer que o nosso planeta Terra, com suas formas de vida proliferantes, seja melhor do que Júpiter ou Urano que, de acordo com a astronomia moderna, são planetas congelados e sem vida, com atmosferas compostas de elementos que poderíamos considerar venenosos. Ou olhando a história de nosso próprio planeta, não existe motivo para dizer que o estado atual de nosso meio ambiente seja melhor do que o da Terra primitiva que, conforme a geociência moderna, era uma rocha sem vida, com uma fina e escassa atmosfera, hostil às formas de vida atual.

Então, se não podemos afirmar, com base nas suposições científicas modernas, que qualquer estado particular de nosso meio ambiente é naturalmente bom e, deste modo, digno de preservação, talvez possamos abordar o problema de outra maneira. Podemos olhar a natureza, o meio ambiente, como um instrumento útil, ou uma fonte de bons subprodutos. Em outras palavras, a natureza é algo que produz coisas de valor às criaturas vivas. Comumente falando, nós adotamos uma visão antropocêntrica, e consideramos a natureza como um instrumento para a felicidade de nossa própria espécie humana. Mas, de acordo com as suposições da ciência evolutiva moderna, a nossa espécie humana é o produto acidental de milhões e aleatórias mutações genéticas. Então, não existe nada de especial sobre a espécie humana e suas necessidades. Certamente poderíamos adotar uma visão mais ampla e apelar à natureza como um instrumento útil para todo o ecossistema, composto de muitas espécies. Mas novamente encontramos o mesmo problema. Por que o ecossistema de hoje é melhor do que o ecossistema que existiu durante o período pré-cambriano quando, segundo os cientistas, não existia vida alguma sobre a terra, e nos oceanos apenas água-viva e crustáceos?

Outra maneira é considerar o meio ambiente como um componente útil. Um conhecido meu, Jack Weir, professor de filosofia da Morehead State University, em Kentucky, apresentou um argumento neste sentido12. Resumindo, considerando as hipóteses evolucionárias da ciência moderna, nós somos o que somos por causa do meio ambiente. De acordo com esta visão, nós somos de certo modo formados pelo nosso meio ambiente. Se o nosso meio ambiente fosse diferente, nós não seríamos capazes de permanecer onde estamos. Mas novamente nos deparamos com um problema. Considerando as hipóteses evolucionárias da ciência moderna, o que existe de tão especial em nosso status de ser humano? Por que ele, assim como o meio ambiente que o constitui, deveria ser considerado digno de preservação? Por que não continuar com o nosso atual curso de consumo excessivo e destruição ambiental? Deixar a seleção natural continuar a operar, como supostamente ocorreu no passado. Deixar morrer as velhas espécies e permitir que as novas surjam. Ou deixar todas as espécies morrerem. Supondo que a própria vida é um acidente de combinação química nos oceanos primitivos da terra, torna-se difícil afirmar o motivo da preferência especial por um planeta com ou sem vida.

Jack Weir apoiou a sua declaração de que a natureza era um componente útil com apelos ao “holismo científico e coerência epistemológica”. Mas ele admitiu que “outros apelos” poderiam ser feitos, tais como para “estórias e mitos, tradições religiosas e crenças metafísicas”. Certamente alguém poderia também apelar para uma ciência diferente baseada em um sistema diferente de suposições metafísicas e talvez chegar a conclusões diferentes sobre a origem da vida e do universo.

Se olharmos para a história da ciência, da época de Newton até agora, nós descobriremos que os cientistas acumularam um grande corpo de evidência sugerindo que existe uma força vital operando nas coisas vivas, uma força operando além das leis da física e da química como atualmente compreendido. Em todo o mundo encontramos grande interesse em sistemas alternativos de medicina tal como a Ayurveda que é baseada na compreensão desta força vital, ou forças. Na escola de medicina da UCLA existe um instituto dedicado a incorporar as percepções dos esquemas médicos tradicionais do Oriente com a medicina do Ocidente. Existe também bastante acúmulo de evidência sugerindo que há um ser consciente capaz de viver separado do organismo físico. Esta evidência resulta dos estudos sobre fenômenos abrangendo desde experiências fora do corpo até lembranças de vidas passadas. Muito desta evidência não se encaixa facilmente nas suposições materialistas da ciência moderna, e é, portanto, vista com considerável suspeita. Mas esse corpo de evidência está aumentando diariamente e poderia ser incorporado na estrutura de uma nova ciência para operar com um sistema expandido de suposições metafísicas. Além do Instituto Bhaktivedanta, existe um certo número de grupos científicos tentando isto, entre eles o Scientific and Medical Network, na Inglaterra, o Institute for Noetic Sciences, nos Estados Unidos, o Society for Scientific Exploration, o International Society for the Study of Subtle Energy and Energy Medicine, entre outros. Além disto, na medida em que os cientistas continuam as suas pesquisa sobre o mecanismo biomolecular dentro da célula, eles encontram estruturas e sistemas de irredutível complexidade, que levam alguns, mais uma vez, a considerar seriamente a idéia do plano inteligente preferivelmente à evolução ao acaso como explicação. A esse respeito, eu posso recomendar os vários ensaios de Michael Behe ou o seu recente livro Darwin's Black Box.

Em novembro passado eu discursei em uma conferência de cientistas no departamento de física nuclear na Universidade de Ciência ELTE, em Budapeste, Hungria. Eu compartilhei o palanque com Maurice Wilkins, um britânico ganhador do Prêmio Nobel em física, cujas descobertas ajudou na construção da bomba atômica durante a Segunda Guerra Mundial. O assunto era, como aqui, ciência e religião. Eu escolhi como tema a física e o sobrenatural. Eu propus que se houvesse de existir qualquer ligação entre ciência e religião, teria que ser no misterioso território de realidade que repousa entre eles, e indubitavelmente a compreensão deles sobre esse misterioso território de realidade teria de ser renegociada.

Em termos de física, isto envolveria um reingresso na compreensão da realidade que tivesse um componente espiritual, não mecanicista. Eu mostrei que Newton escreveu tanto sobre alquimia e temas espirituais, quanto sobre matemática, física e ótica, e para Newton, a sua física, a alquimia e escritos sobre temas místicos, eram todos partes de um único sistema, do qual a ciência moderna extraiu apenas a parte que lhe era conveniente. A idéia da investigação séria dos componentes espirituais ou sobrenaturais da realidade física é tabu nos dias de hoje, mas nem sempre foi assim. No último século encontramos Sir William Crookes, ganhador do prêmio Nobel em física, descobridor do tálio, inventor do tubo de raio catódico, e presidente da The Royal Society, conduzindo extensiva pesquisa voltada ao sobrenatural. O fisiologista francês ganhador do prêmio Nobel, Charles Richet, que conduziu ele próprio extensiva pesquisa sobre o fenômeno paranormal, diz em seu livro Thirty Years Of Psychical Research, que ele, às vezes, foi ajudado por Pierre e Marie Curie, que dividiu o prêmio Nobel de física por suas descobertas no campo dos elementos radioativos. Por exemplo, descobrimos que Marie Curie controlava um famoso médium, enquanto Pierre Curie media os movimentos dos objetos que se mexiam sob aparente influência psicocinética. Não estou apresentando esses incidentes para provar a realidade do fenômeno, mas para ilustrar a receptividade às novas idéias por parte desses famosos físicos experimentais, a disposição deles para investigar um fenômeno difícil e trabalhoso. Mas não é isto o que se supõe que a ciência, quando muito, deveria ser?

Após terminar minha palestra em Budapeste, eu tive curiosidade, é claro, em saber como foi aceita. Fiquei surpreso quando o chefe do departamento de física de uma grande universidade da Europa aproximou-se de mim e expôs que, em sua casa, ele havia secretamente conduzido alguns experimentos de telepatia. Para sua grande surpresa, ele obteve interessantes resultados, e perguntou-me se eu poderia colocá-lo em contato com outras pessoas na América que estivessem conduzindo semelhantes investigações.

Mas o que tudo isso tem a ver com o meio ambiente, com a natureza? Tem tudo a ver, por que se nós vamos formular uma ética ambiental, devemos primeiramente compreender o que é o nosso meio ambiente. E a partir do ponto de vista védico e, em particular o vaishnava, diríamos que é uma energia divina, uma energia que emana de um Deus sublime que é, no entanto, imanente à natureza, que é por si só povoado com entidades conscientes e estruturado de uma forma definida para um propósito definido, ou seja, dando oportunidade para essas entidades conscientes voltarem ao seu estado original puro. E existe um corpo de evidência científica que é consistente com vários elementos dessa visão. Em outras palavras, a religião deve ser algo mais do que um sistema de crenças socialmente úteis que podem ser utilizadas pela ciência para ajudar a solucionar certos problemas, tais como a crise ambiental. Eu considero isso como uma falsa união da ciência com a religião. Pode ser que a religião tenha percepções decisivas sobre a natureza da realidade que possam ser fundamentais para sua verdadeira ligação com a ciência, para o bem da humanidade.

De posse dessas concepções fundamentais torna-se fácil formular uma ética ambiental. Supondo que, de acordo com os ensinamentos vaishnava, esse mundo seja um reflexo diversificado da realidade espiritual, e essencialmente como um jardim, nós podemos dizer que existe algum valor intrínseco na tentativa de manter uma condição de meio ambiente que mais estreitamente se assemelhe com o original. Quando as crianças aprendem a escrever, elas geralmente são convidadas a copiar cartas, e se a tentativa delas parece com o original diz-se que está bom; se não, diz-se que está ruim. Da mesma forma, nós podemos pedir que exista uma bondade intrínseca voltada a uma determinada condição das questões ambientais.

Além disto, existem certos princípios védicos que contribuem de várias formas para uma ética ambiental viável. A primeira delas é athato brahma-jijnasa. Isso é o mantra de abertura do Vedanta-sutra. Isto significa que o propósito da vida humana é o cultivo da consciência, inclusive o cultivo do relacionamento amoroso entre a consciência individual e a suprema consciência.

Eu quero interromper aqui para dizer que não é todo doutrinamento religioso que leva a uma ética ambiental viável. Existem muitas manifestações de religião que, como a ciência materialista moderna, encorajam o processo destrutivo de dominação, exploração e interminável consumo. Mas o sistema védico enfatiza o estudo e o desenvolvimento da consciência mais do que o estudo e o desenvolvimento da matéria. A matéria não é ignorada, mas é vista em sua conexão com a suprema consciência. De qualquer modo, o princípio de brahma-jijnasa encoraja uma ética de moderação que contribui para consideráveis níveis de desenvolvimento econômico e de consumo, que não colocaria uma sobrecarga tão grande no ecossistema.

O Vedanta-sutra também afirma: anandamayo 'bhyasat. Nós formos feitos para sermos felizes, e pelo do cultivo da consciência através dos meios adequados, nós podemos obter a satisfação espiritual. E isso também sustenta uma ética de moderação. O Gita afirma: param drishtva nivartate. Quando você alcança o mais alto estado de consciência espiritual desenvolvida, você automaticamente priva-se da gratificação material excessiva. Um correto equilíbrio é alcançado.

O princípio védico de ahimsa, ou não-violência, também tem essa aplicação.

A não-violência pode ser compreendida de muitas maneiras. Por exemplo, o encorajar as pessoas a dedicarem suas vidas à irrefreável produção e consumo materiais pode ser considerado um tipo de violência contra o espírito humano, e eu penso que basta que olhemos à nossa volta para ver os efeitos dessa violência. Se olharmos os americanos na época de Natal empurrando uns aos outros em seus reluzentes centros comerciais e, no lugar de prestar atenção ao ensinamento védico athato brahma-jijnasa, dedicando-se a doutrina de comprar até cair, ou o poder de comprar, ou qualquer outra coisa, eu acho que vemos uma espécie de violência. Quando observamos os jovens trabalhadores chineses que são amontoados em dormitórios em volta das fábricas que fornecem a maior parte das mercadorias de Natal encontrada nos centros comerciais americanos, podemos também sentir aquela violência para com o espírito humano.

O princípio de ahimsa pode também ser aplicado na própria Terra. Recentemente escutamos a respeito do princípio Gaia, a idéia de que a Terra é, em certo sentido, um organismo. Esse princípio há muito tempo foi reconhecido pela filosofia Védica, e nós devíamos tentar não cometer violência para com o nosso planeta através da poluição desnecessária do ar, da terra e da água.

E a não-violência se aplica também a outros seres vivos. Aceitando o ensinamento védico de ahimsa não iremos caçar espécies até sua extinção. Eu também chamarei atenção que a matança de animais para o sustento, principalmente animais criados em fazenda-fábricas e mortos em enormes abatedouros mecanizados, é uma das práticas ambientalmente mais destrutivas nos dias atuais. É o desperdício de preciosos recursos naturais. Isto envenena a terra e a água.

Pode se ver, deste modo, que a filosofia védica fornece muitos apoios para uma ética de preservação ambiental. Semelhante apoio pode ser obtido dos ensinamentos de outras grandes tradições religiosas do mundo. Mas colocar essa sabedoria em prática é difícil. Em muitas áreas de interesse ético, nós podemos adotar uma atitude objetiva. Se falarmos sobre abuso infantil, por exemplo, nos sentimos seguros de que vários de nós não são culpados por tal coisa, e podemos confortavelmente discutir as implicações éticas de tal comportamento e sobre que passos devem ser tomados para controlar isto, sem aparentar sermos hipócritas. Mas quando falamos de crise ambiental, descobrimos que quase todos nós estamos diretamente implicados. Torna-se, portanto, difícil falar sobre éticas ambientais sem aparentar sermos hipócritas. Entretanto, nós devemos falar. E isto causa em nós um sentimento de humildade, e também um sentimento que mesmo pequenos passos em direção à verdadeira solução, que deve ser uma solução espiritual, são bem vindos e valorizados.

Alan Durning, um pesquisador sênior do World Watch Institute, escreveu: "Seria desesperadamente ingênuo acreditar que todos os habitantes irão, de repente, experimentar um despertar moral, renunciando a ganância, a inveja e a avareza. O melhor que se pode esperar é um despertar gradual aumentando o círculo daqueles praticantes da simplicidade voluntária”.

A esse respeito, eu quero citar brevemente que o Bhaktivedanta Swami Prabhupada durante a sua vida fundou várias comunidades rurais para o propósito de demonstrar a vida de semelhante simplicidade voluntária. Desde a sua partida desse mundo em 1977, o número dessas comunidades aumentou para 40 em 5 continentes, em locais desde a floresta tropical do Brasil até às estepes da Rússia.

Após ter discursado aos físicos em Budapeste, eu tive a oportunidade de visitar uma destas comunidades. Eu tenho de confessar que fiquei muito surpreso ao encontrar tal comunidade rural fundamentada nos princípios védicos nas planícies do sudoeste da Hungria. O centro da comunidade era uma espécie de templo modernista, mas ao perguntar, fui informado que o mesmo foi construído usando paredes de terra socada, usando outras técnicas tradicionais. Nenhuma eletricidade era usada no templo ou em qualquer outro lugar da comunidade. Ao longo das paredes do templo eu vi lâmpadas de latão, que queimavam óleo espremido das sementes de colza cultivadas no local. Era um dia bastante frio de novembro, e eu vi que o prédio era aquecido com fogões à lenha supereficientes, usando madeira colhida dos 50 acres de floresta de propriedade da comunidade. Ofereceram-me, então, uma refeição vegetariana que exibia vegetais cultivados localmente, chapatis feitos de trigo cultivado e preparado na comunidade, e queijo das vacas da comunidade. Fui informado que os bois são treinados para fazer o trabalho da fazenda e o transporte. As pessoas que eu conheci não pareciam nem um pouco carentes.

Eu disse a alguns deles, “Vocês estão fazendo a coisa certa". E não é isto mesmo o que significa éticas ambientais, não apenas falando sobre, mas fazendo a coisa certa?

Para resumir, do ponto de vista dos princípios védicos, eu diria que os seguintes elementos são necessários para uma completa solução para a crise ambiental:

(1) uma ciência que reconheça diferentes seres conscientes, provenientes de um ser consciente original, como entidades essenciais.

(2) uma religião que vá além do dogma e do ritual para fornecer reais fontes de satisfação espiritual pela prática da meditação, yoga, etc.

(3) respeito pelos seres vivos, enxergando-os como seres conscientes como nós.

(4) uma dieta vegetariana bondosa para com o ecossistema.

(5) um sistema econômico baseado em vilas e pequenas cidades, enfatizando a produção local e a auto-suficiência. Qualquer coisa fora isto simplesmente não daria o resultado desejado.

Michael Cremo (Drutakarma dasa) é editor associado da revista Back to Godhead, e um membro pesquisador em história e filosofia da ciência para o Bhaktivedanta Institute.

Notas:

1. A conferência Consumption, Population, and the Environmentocorreu de 9 a 11 de novembro no Campion Retreat Center, nos arredores de Boston.

2. Michael A. Cremo e Mukunda Goswami, Divine Nature, A Spiritual Perspective On The Environmental Crisis. Los Angeles, Bhaktivedanta Book Trust, 1995.

3. Em 5 de maio de 1995, Kamal Nath, então Ministro do Meio Ambiente e Florestas, escreveu: "Nesta época em que os países em desenvolvimento do mundo tendem a deixar que o progresso industrial domine suas economias, inconsciente da destruição ambiental, Divine Nature chega como um bem-vindo sopro de alívio. Os autores têm, de forma persuasiva, argumentado que um retorno ao valor original do profundo parentesco da humanidade com todas as coisas vivas é a chave para se alcançar penetrante consciência ambiental”. E em 16 de junho de 1995, Maneka Gandhi, o ex-Ministro do Meio Ambiente e Florestas, escreveu: "Este livro deve ser lido como um plano gerencial para a economia, principalmente por políticos e gerentes de negócios que, tendo nos colocado nesta confusão em que nos encontramos ao promover padrões cultural e alimentar que são destrutivos, na errônea crença que o dinheiro pode ser obtido através da devastação, possam agora realmente entender como consertar a Terra de forma que todos nós consiga viver, e não meramente existir".

4. O Departamento de Interior está encarregado do sistema de parque nacional, e supervisiona o gerenciamento da fonte ambiental de grandes áreas de terra de propriedade do governo. O relato dessas declarações é retirado de minhas anotações em seu discurso.

5. Bhagavad-gita, 10.25. As traduções citadas nesse ensaio são de Sua Divina Graça A. C. Bhaktivedanta Swami Prabhupada, O Bhagavad-gita Como Ele É, edição completa, revisada e ampliada, Bhaktivedanta Book Trust, Los Angeles, 1989.

6. Bhagavad-gita, 10.31.

7. Bhagavad-gita, 10.35. Após listar inúmeras manifestações de Sua presença na natureza, Krishna continua a afirmar no Bhagavad-gita, 10.41: "Fique sabendo que todas as criações opulentas, belas e gloriosas emanam de uma simples centelha de Meu esplendor". Isto indica que Deus, embora imanente na natureza, também a transcende.

8. O manifesto foi intitulado Preserving and Cherishing the Earth: An Appeal for Joint Commitment in Science and Religion. As citações nesse ensaio são uma cópia reprográfica do original.

9. Bhagavad-gita, 16.8.

10. Bhagavad-gita, 16.11.

11. Bhagavad-gita, 16.12.

12. Jack Weir (1995) Bread, Labor: Tolstoy, Gandhi, and Deep Ecology. Apresentado no Institute for Liberal Studies por ocasião da 6ª Conferência Interdisciplinar Anual sobre Ciência e Cultura, na Universidade do Estado de Kentucky, Frankfort, Kentucky. Não publicado.

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