Os Quatro Princípios

Os Quatro Princípios
Por Giridhari Das

É um fato científico que aquilo que ingerimos, aquilo que fazemos e nosso ambiente afeta nosso estado mental, nossa consciência. As práticas de bhakti agem no nível mais sutil de todos, o nível espiritual. Temos que nos situar de tal forma a aumentar nossa capacidade de agir nesse nível. Para realizar alguma prática qualquer apenas com o corpo material basta ter certeza que estamos fisicamente capazes para tal. Para realizar alguma prática mental, precisamos nos certificar que nossa mente não está excessivamente agitada ou perturbada. Estudos mostram que em empresas onde são minimizadas as preocupações dos empregados ao oferecer, por exemplo, um ambiente tranqüilo de trabalho, creches e seguro saúde, o trabalhador rende muito mais, tanto qualitativa quanto quantitativamente. Para realizar práticas intelectuais, ainda mais preparo externo é necessário e ainda mais fatores podem atrapalhar sua realização. É comum ouvirmos falar que escritores se refugiam em solitários e distantes locais para realizarem seu trabalho. Assim, da mesma forma, temos que tomar cuidados para criar, em nossas vidas, condições favoráveis para praticar atividades ainda mais sensíveis, mais sutis, que as intelectuais, que são as práticas espirituais.
Os Vedas explicam que a realidade material é composta de uma combinação de três gunas (termo que é traduzido como modos), da mesma forma que todas as cores são compostas da combinação das três cores primárias. Os três modos são denominadados de bondade, paixão e ignorância. Tudo que existe é um resultado de uma específica combinação desses modos. Lembre-se que estamos falando aqui de algo muito mais elementar que átomos ou mesmo ondas de energia. Basicamente, bondade é aquilo ligado a paz, conhecimento, tranqüilidade, pureza, compaixão, benevolência, etc; paixão é aquilo ligado a criação, a conquista, a busca do prazer sensorial, etc.; ignorância é aquilo ligado a ilusão, sujeira, sofrimento, escuridão, maldade, etc. O assunto dos modos é de máxima importância, tanto que uma boa parte do Bhagavad-gita é destinado a esse assunto. É um assunto complexo e não é nosso objetivo tentar explicá-lo aqui. Para isso serve o item um das práticas de bhakti-yoga.
O que precisamos entender, porém, é que devemos buscar o modo da bondade para criarmos as condições mais favoráveis à prática de bhakti. Vamos aqui descrever quatro princípios básicos e suas predominantes regras que devem ser seguidos para garantir essas condições, mas é importante salientar que devemos entender o conceito por trás desses princípios.
Devemos ficar sempre atentos ao dominante modo da natureza material com o qual estamos em contato, buscando sempre o modo da bondade, evitando o modo da paixão (que nem sempre é possível de acordo com o tipo de vida que temos, nossa profissão, etc.) e certamente ficando longe do modo da ignorância. Lembre-se também que essas não são pré-condições para a prática de bhakti! São princípios que irão abrir seu caminho espiritual, fortalecer sua capacidade de praticar bhakti, garantir sua permanência em estados de consciência progressivamente mais elevados.
Os quatro princípios:
3.1 Não violência — Não comer nenhum tipo de carne, peixe ou ovos.
Como mencionado acima, uma das práticas mais importantes de bhakti é comer apenas prasadam. O que dizer do ato de matar um animal (ou qualquer criatura) inocente, os cadáveres de animais em si estão no modo da ignorância, por serem coisas essencialmente em putrefação. Assim sendo, Deus não aceita esse tipo coisa. Portanto, acima de tudo, evitamos o consumo de qualquer tipo de carne, peixe e ovos porque não devem ser oferecidos a Deus e assim não podem se tornar prasadam. Além dessa consideração, é óbvio que a matança indiscriminada de animais inocentes, muitos com consciências bastante desenvolvidas, emoções, conceitos de família, amigos, etc., apenas para degustar o sabor de seu cadáver, é algo bastante violento, grosseiro e imoral.
Mesmo para aqueles que não têm muita sensibilidade espiritual, ética e moral, o consumo de animais também traz desastrosas conseqüências dos pontos de vista ecológico, físico e econômico. Para aqueles que ainda não compreenderam os múltiplos efeitos perversos do consumo de animais, cabe pesquisar o assunto seriamente — existe farto material sobre o assunto na Internet, em livros e revistas.
3.2 Austeridade — Não se intoxicar, evitando todo tipo de droga, inclusive cigarros, bebidas e cafeína.
Drogas, como se sabe, afetam sua mente, distanciando-a da realidade. Inclusive sabe-se que a maioria dos usuários de drogas deseja justamente fugir da realidade, que é compreensível visto que a vida no mundo material pode ser muito desagradável. Porém, devemos é nos libertar do conceito material que nos traz tanto sofrimento, elevando nossa consciência à plataforma divina, e não a afundando num escuro poço de ilusão. Já nos encontramos num estado distante da suprema realidade espiritual, confusos sobre nossa real identidade e propósitos da vida. Obviamente então o consumo de substâncias que irão piorar essa situação não pode nos trazer qualquer benefício. Por estimularem a ilusão, drogas também estão no modo da ignorância e, assim, como tudo mais no modo da ignorância, são altamente prejudiciais ao seu progresso espiritual (como também seu bem-estar físico, mental e emocional). Não é necessário descrever aqui os terríveis resultados do consumo de drogas e cigarros, já amplamente conhecidos. Infelizmente os nocivos efeitos do álcool são menos conhecidos, mas basta ver as estatísticas e pesquisas para sentir seu impacto destrutivo tanto na sociedade (violência, acidentes de trânsito, etc.) como no corpo (danifica todos os órgãos do corpo, envelhecimento, etc.).
3.3 Veracidade — Não se envolver com jogos de azar.
Por trás de todo jogo de azar, apostas, etc., está a enganação, a trapaça. O governo lhe fala para você apostar seu valioso dinheiro para concorrer a uma chance de ganhar uma fortuna na loteria. Claro que quem vai realmente ganhar a fortuna é o governo e você será o enganado. Mesmo se ganhar, estará apenas dividindo com o governo o resultado de uma grande trapaça envolvendo milhões de pessoas. O mesmo vale para todos jogos de azar. Além do mais, o jogo de azar agita muita a mente. Nos tira completamente da paz e seriedade necessários para praticarmos bhakti. O jogo de azar é tão maléfico que existem muitos viciados, cujas vidas foram totalmente destruídas pelo jogo.
3.4 Pureza — Não praticar o sexo irrestrito.
O sexo por mero prazer é chamado por Srila Prabhupada como sexo ilícito, é considerado contra as leis de Deus, e gera todo tipo de problema para os indivíduos e a sociedade como um todo. O sexo irrestrito é uma atividade inteiramente mundana, diretamente ligada a seu corpo e não a seu real estado como alma espiritual; portanto, é um grande obstáculo a vida espiritual e a principal razão pela qual continuamos presos no mundo material.
O ponto fundamental é entender que o sexo por prazer é um ato material, não espiritual. Apenas o sexo que tenha como objetivo trazer ao mundo devotos de Deus, numa estrutura familiar estável (casamento), é um ato verdadeiramente espiritual. Tendo dito isso é compreensível que para aqueles que não estão na plataforma de pura espiritualidade haja a necessidade de praticar o sexo apenas por prazer. O fato de isso ser compreensível não o torna louvável nem deve servir de ímpeto para livremente engajarmos na prática sexual por prazer. Devemos, sim, seriamente nos engajarmos em serviço devocional, nas várias práticas de bhakti-yoga, com cada vez mais afinco, dedicação e qualidade, com o sincero e intenso desejo de um dia nos situar na plataforma de eterna bem-aventurança e conhecimento, livre das contaminações da natureza material, livre não só de luxúria (que é em última análise o desejo egoísta de controlar e desfrutar de alguém, de várias pessoas, ou mesmo de alguma situação), mas também das demais má qualidades que manifestamos na plataforma condicionada material, como orgulho, intolerância, ganância, raiva, inveja, etc.

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