Podem As Religiões Competir?

Podem As Religiões Competir?

"Um teólogo alemão permitiu que bhakti lhe falasse, que se dirigisse diretamente à ele, até mesmo que o desafiasse – mas somente até certo ponto.”
Neste século mais do que nunca os pensadores cristãos se encontram interessados em compreender as outras religiões. Para os cristãos, essa tem sido uma importante preocupação: “Devemos aceitar a legitimidade das outras religiões, ou devemos negar a existência das outras religiões e defender que Deus tem uma única revelação, a revelação cristã?”
Alguns teólogos cristãos adotaram uma postura liberal ao dizer que o cristianismo é apenas uma entre as várias religiões do mundo e que as outras devem ser consideradas simplesmente como válidas. Outros adotaram uma postura exclusivista ao dizer que, embora certamente existam várias religiões, existe somente uma única fé – cristianismo.
Apesar disso, outros teólogos cristãos têm, entretanto, desejado olhar mais atentamente por valores genuínos nas outras religiões do mundo. Um desses teólogos, um dos mais renomados pensadores religiosos desse século, foi um estudioso alemão chamado Rudolf Otto, particularmente conhecido por seu livro intitulado A Idéia Do Sagrado. Como um teólogo cristão, Otto não se contentou simplesmente em comparar as religiões do mundo. Melhor dizendo, ele estava preocupado com a importância dessas religiões para o cristianismo. Muitos mais que isto, ele era sensível ao pluralismo incluído numa religião que o confrontasse em sua própria fé. Na verdade, ele estava preocupado com aquela religião especial que ele sentia ser a “concorrente” do cristianismo.
O que exatamente Otto queria dizer por concorrente religioso, e o que seria esse concorrente para o cristianismo? Tal concorrente, explicou Otto, reivindicaria ser igual ou mesmo superior ao cristianismo, e teria uma boa base para fazer tal declaração. De acordo com Otto, um concorrente religioso é “tudo que possa buscar um lugar em nossos corações ou controlar nossas vidas que não seja a nossa fé, mas uma rival dela.”
De todas as tradições religiosas, aquela que Otto considerou a concorrente do cristianismo foi aquilo que ele se referiu como “a religião Indiana da misericórdia”, ou “religião-devoção”. Ele falou sobre este concorrente em seu livro A Religião Indiana da Misericórdia e o Cristianismo, Contrastadas e Comparadas. Ali ele escreveu:
"Nessa religião-devoção indiana é demonstrado, sem dúvidas, que existe um Deus real e Salvador, acreditado, aceito, e – podemos duvidar disto? – experimentado. E isso é justamente o motivo pelo qual essa religião parece ter sido, e ainda ser nos dias de hoje, a 'concorrente´ mais surpreendente que deve ser considerada com a maior seriedade".
Ademais:
"Aqui, estamos lidando com uma religião genuína e uma religião de vivência. A religião aqui não é apenas um simples sentimento periférico que serve de enfeite para o resto de nossa vida, mas sim compreendida como o verdadeiro sentido da própria vida".
Otto dedicou uma boa parte desse livro para demonstrar e avaliar as numerosas semelhanças entre bhakti e cristianismo. Mais tarde em seu trabalho, entretanto, Otto mencionou que as duas religiões demonstram uma diferença de “espírito”:
"A pessoa sente que lá no Gita o espírito da Índia respira, aqui (na Bíblia) o especial e, digamos, ao mesmo tempo, o incomparavelmente mais penetrante e vigoroso espírito da Palestina".
É claro, em parte alguma de seu trabalho Otto demonstrou que conhecia o “espírito” de bhakti, nem jamais expressou exatamente como aquele “espírito da Índia” respira através do Gita. Por isso, sua declaração é mais difícil de ser aceita como erudita do que emocional. Como Otto determinou que um espírito “penetrante e vigoroso” é de certo modo melhor do que algum outro tipo? E quanto a isto, ele realmente apresentou bhakti como sendo menos penetrante e vigoroso? Finalmente, como poderia Otto avaliar bhakti e compará-la ao cristianismo quando ele mesmo admitiu, “Nossa (Cristão) teologia carece de categorias para avaliação e comparação de outros tipos de religiões com a nossa própria”?
Todavia, embora Otto nunca compreendesse totalmente bhakti, e embora a exatidão na maneira como ele representava bhakti seja altamente questionável, ele ainda quis fazer a bhakti competir com o cristianismo, em termos de componentes religiosos estranhos ao próprio cristianismo:
"Se (religiões) forem consideradas como genuínas concorrentes (...), devem ser consideradas em relação aquilo que o cristianismo tem a oferecer como seu elemento mais característico e profundo, como seu dom peculiar, o bem mais elevado e derradeiro que tenha para dar a humanidade".
Comparar duas religiões pela abordagem e comparação do “dom peculiar” e do “bem mais elevado e derradeiro” de ambas soaria como erudição, mas Otto não fez isto. Ou melhor, ele levou em conta como uma religião, como um todo, se igualaria às limitadas expectativas extraídas do cristianismo. Então, ele queixou-se, “a Índia não tem ‘expiador’ (referindo-se especificamente a Jesus), nenhum Golgotha (a colina na qual Jesus foi crucificado), e nenhuma Cruz.” Isso afirma simplesmente que bhakti não é cristianismo; isto de forma alguma mostra bhakti como inferior.
Posto que o modelo de comparação de Otto foi aquele da competição, e porque em cada competição deve haver um vencedor e um perdedor, Otto foi forçado a fazer de tudo para que o cristianismo abatesse sua finalista bhakti. O cristianismo então reinaria supremo não apenas sobre bhakti, sua mais respeitável concorrente, mas sobre todas as outras religiões do mundo.
Diferente do cristianismo, entretanto, a teologia bhakti tem realmente muitos princípios através dos quais avalia e compara as religiões. Um importante verso do Bhagavad-gita (4.11) explica a diversidade e unidade entre as religiões:

ye yatha mam prapadyante
tams tathaiva bhajamy aham
mama vartmanuvartante
manushyah partha sarvashah

Este verso declara que Deus retribui de maneira distinta de acordo com as diferentes formas que nos rendemos a Ele, e que as diversas religiões simplesmente expressam diferentes graus e formas de se render a Deus. Esses modos de rendição, por sua vez, determinam a diversidade de relacionamentos com Ele. Essa diversidade, entretanto, não nega a unidade da religião, que repousa somente sobre nosso reconhecimento de Deus como supremo e nós mesmos como Seus eternos servos.
Visto que Otto reconheceu a “total divindade” de bhakti, ele não poderia argumentar que o supremo Deus de bhakti não é, de certo modo, o mesmo Deus como no cristianismo, nem poderia ele argumentar que o mesmo Deus supremo é mais supremo no cristianismo. Ao invés disto, Otto precisou julgar bhakti segundo as formas do relacionamento particular com Deus adotadas pelo cristianismo, ainda que esse relacionamento fosse algo que pudesse ter um rival. O que Otto desconhecia sobre isso: por causa da variedade nas religiões resultando na variedade de relacionamentos que a pessoa pode ter com uma única Divindade suprema, não pode existir competição entre as religiões que permitem apenas uma única religião como verdadeira. Então a falsa pressuposição de Otto – que as religiões podem competir – levou-o finalmente para alguns estranhos apuros teológicos.
Diferentemente de seus contemporâneos mais exclusivistas, Otto estava disposto a observar mais de perto as outras religiões para determinar seus valores religiosos genuínos. Ele estava certo em compreender bhakti como uma “genuína religião”, com um “Deus real e salvador” que é sinceramente “acreditado, aceito e experimentado”. E também estava certo ao detectar uma diferença de espírito entre bhakti e o cristianismo, embora ele fosse incapaz de atribuir essa diferença à exclusividade do relacionamento com Deus encontrado em cada religião. O fato que Otto considerou bhakti a mais importante religião “concorrente” do cristianismo atesta que ele permitiu que bhakti lhe falasse, que se dirigisse diretamente à ele, até mesmo que o desafiasse – mas somente até certo ponto.
Aqui é importante notar que a idéia de uma competição permitiu que Otto aparentemente aceitasse a existência de uma genuína religião que não fosse o cristianismo; o exclusivismo nem mesmo começa a admitir um concorrente. Mas a completa noção de uma competição, que requer um vencedor e um perdedor, deixou que Otto por fim agisse de forma exclusivista – ao conduzir a competição para que o cristianismo vencesse.
Para que o estudo comparativo da religião verdadeiramente aceite a existência de várias religiões verdadeiras, deve-se evitar a instalação de uma competição entre elas. Antes disso, o real propósito da religião comparativa deve ser para promover nossa compreensão da simultânea unidade e diversidade das religiões: a unidade de Deus e a variedade de possíveis relacionamentos com Ele.
Otto não tinha conhecimento de que bhakti não é apenas uma religião, mas sim a própria personificação dos mais altos princípios para os quais todas as religiões finalmente apontam. Embora, historicamente bhakti pareça ter surgido de dentro do complexo de religiões “Hindu”, é evidente, a partir da perspectiva teológica, que ela representa algo mais do que sua mera historicidade. A experiência de bhakti apresenta uma integridade de significado muito além daquela particular tradição ou religião sectária (que é como Otto tratou bhakti). Mais ainda, bhakti expressa o fundamental significado da própria religião. O que então, significa o termo bhakti?
Um olhar na etimologia da palavra bhakti é revelador. Morfologicamente, a palavra bhakti deriva da raiz do verbo em sânscrito bhaj. De forma geral, esse verbo significa “venerar”, “amar”, ou “servir”, e essas palavras definem bhakti de forma básica. Mas o sentido mais literal do verbo bhaj é “compartilhar”, o que indica o que finalmente essencial a todas as religiões: a devoção e o amor do homem para com Deus, e a reciprocidade de Deus na forma de Sua graça e amor pelo homem. Essa idéia está expressa em vários lugares nas escrituras bhakti. No Gita, por exemplo, encontramos isso: “Aquelas pessoa que estão constantemente devotados a Deus e O veneram com amor, Ele dá, por Sua graça, a percepção através da qual elas podem chegar até Ele” (Bg., 10.10).
Na verdade, bhakti expressa a própria ciência do relacionamento entre o homem e Deus. Mas Otto não identificou a verdadeira natureza de bhakti, e então falhou no reconhecimento que o princípio fundamental de bhakti é também básico ao cristianismo. Embora não enfatizada tanto quanto em tais escrituras religiosas como Bhagavad-gita e Srimad-Bhagavatam, ela pode ser encontrada nos dizeres de Jesus, “Você deve amar o Senhor seu Deus com todo o seu coração, e com toda a sua alma, e com toda a sua mente. Isto é o importante e primeiro mandamento.” Se o próprio Jesus Cristo reconheceu esse princípio bhakti como a primeira exigência, “o grande mandamento”, de todas as religiões, então podemos justificadamente perguntar, qual é o significado do expiador do cristianismo, sua Golgotha, e sua Cruz se a pessoa negligencia esse fundamental princípio bhakti?

Graham M. Schweig, PhD (Garuda das) é Professor Assistente de Filosofia na Christopher Newport University, Newport News, Virginia. Dr. Schweig é um acadêmico de Religião Comparativa e um especialista em Filofoia da Índia, Cultura Sul-Asiática e língua e literatura Sânscrita. Ele tem os seguintes diplomas:
Ph.D. Religião Comparativa, Harvard UniversityTh.M. Religião Comparativa, Harvard UniversityM.T.S. História das Religiões, Harvard UniversityM.A. Línguas e Civilizações do Sul da Ásia, University of ChicagoB.A. Estudos Interdisciplinares, American University.

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